Bem vindo

Aqui vais encontrar "o melhor das minhas veias" sob a forma de Sonetos.
A lista aqui ao lado , numerada e ordenada para facilitar a leitura, estará em constante crescimento "na louca esperança que tu leias".
Alguns Sonetos têm associado um pequeno video ou um slide show e estão assinalados.
Os Sonetos que aparecem na página inicial foram os últimos a serem colocados, por isso aconselho a começares pelo primeiro(ver lista).
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XCVII Nasceu o Francisco




Francisco, por favor não te demores,
está toda a família à tua espera.
O pai já rói as unhas, desespera,
a mãe quer bem livrar-se destas dores.

Depois há os avós muito ansiosos
por dar-te uma trinquinha tão gulosa,
nas tuas bochechinhas cor de rosa
e verem a quem sais, uns invejosos.

Ao lado são os tios e as tias
(a quem vais dar imensas alegrias)
que esperam aos pulinhos este dia.

Além destes adultos, sem juízo,
esperam-te, abertas num sorriso,
as primas Margarida e Maria.

XCVI Nasceu a Maria



Maria vai nascer daqui a nada
No meio de amor, muito carinho
A mãe, por noves meses o seu ninho,
Confessa estar feliz, aliviada.

Pudera! A Maria está pesada,
E dá mil cambalhotas na barriga
É tão irrequieta a rapariga
Que não lhe dá sossego, é estouvada.

Está toda a família ansiosa
Por ver esta petiz maravilhosa
Que vem como uma dádiva do céu.

O pai está nervoso é normal
Um pouco mais de esforço no final
Maria vai nascer…e já nasceu.

XCV Pecaste?



Pergunta-me o padre tão solícito
detrás daquela rede protectora:
– Pecaste? Se assim for confessa agora
que eu perdoarei qualquer ilícito.

Meu filho pensa bem vai ao teu fundo,
diz lá se o que fizeste, sem vergonha.
Pecado é pior do que peçonha
é algo que te mancha e põe imundo.

Pecaste por palavras ou acções?
Eu faço um exame interior
e fico pensativo por momentos.

Desculpe padre eu peço mil perdões.
Mas juro! Eu fiz tudo por amor.
Pecados? Só se foi em pensamentos.

XCIV A Cigarra e a Formiga




Ouvi pela vida fora mil conselhos,
provérbios, lengalengas, adivinhas.
Histórias que por entre as suas linhas
transmitem a experiência dos mais velhos.

Algumas escutei maravilhado,
mas sem me aperceber do conteúdo,
sem ver que afinal, no fim de tudo,
há sempre uma lição, ou um recado.

Agora que o Inverno se aproxima
eu deixo um conselho nesta rima,
lição de uma história muito antiga.

Não cheguem como eu à conclusão
que nunca escutei com atenção
o Conto da Cigarra e a Formiga.

XCIII A Idade dos "porquês?"



Voltei, ao fim de todos estes anos,
de novo à idade dos “porquês?”
Perguntas que eu faço, mas não lês,
assim como não vês meus desenganos.

Demando a razão de um novo dia,
procuro pelo riso que não rio,
encontro este cansaço, este fastio
estranho o eclipsar da poesia.

Tacteio a confusão à minha volta,
na boca abafo um grito de revolta
encaro a solidão que me arrosta.

Não tenho soluções por mais que tente
e vejo aumentar à minha frente
a lista das perguntas sem resposta.

XCII Homenagem à Breitling Jet Team



J’essaie de vous faire un sonnet
Que chante la surprise, l’émotion,
Qu’on sent toujours qu’on voit vos avions
Gratter le bleu du ciel en blanche fumée.

Ce sont des manœuvres si extrêmes
Le Boucle, la Bombe, la Barrique
(L’Éclatement Final c’est fantastique).
Enfin, vous écrivez un beau poème.

Et moi ici, les pieds collés au sol,
Je cherche dans ma tête les paroles
Pour faire un cadeau pour vous offrir.

Vous dessinez le ciel en arabesques
J’écris en mots que sont presque grotesques
Ma vraie amitié et un sourire.

XCI Ó Morte, que me assombras a espaços



Ó Morte, que me assombras a espaços,
que fazes mais escuro o meu caminho,
escusas de andar devagarinho.
Na mesma eu escuto os teus passos.

Ó Morte, que te escondes disfarçada
atrás de qualquer página da vida,
eu sei que me persegues decidida,
eu sei que não desistes nem por nada.

Ó Morte só te peço angustiado
que seja muito breve, apressado,
o teu fatal e gélido abraço.

Ó Morte dá-me apenas um momento.
Despeço-me da vida num lamento,
depois eu me encolho em teu regaço.

XC Adoro esse teu travo agridoce



Adoro esse teu travo agridoce,
mistura tão exótica, gourmet.
Nem mesmo sei dizer bem o porquê
dum gosto que nasceu em mim precoce.

Canela com gengibre ou hortelã,
gelado de pistachio e chocolate,
as gotas de limão no abacate,
o doce e o azedo da romã.

O doce é dos teus lábios sumarentos,
da boca entreaberta por momentos
da língua, da saliva açucaradas.

O acre vem do fundo que me tenta,
da carne tentadora, suculenta
das gotas do teu corpo mais salgadas.

LXXXIX Esquece essa ruga prematura



Esquece essa ruga prematura,
a cor que esmorece os teus cabelos,
os dentes cada vez mais amarelos
e olha para ti com mais ternura.

Esquece o teu corpo já flácido
e esse teu andar periclitante.
Repara mais em ti por um instante
mas sem esse azedume, esse ácido.

Encara o espelho sem temor.
A vida, com mais dor ou menos dor,
moldou desta maneira o teu ser.

Se achas que a Vida foi injusta,
se essa tua imagem te assusta,
vais ver o que a Morte vai fazer.

LXXXVIII A mim não me incomoda a idade



A mim não me incomoda a idade.
Estou cada vez mais experiente,
mais sábio e quiçá inteligente,
mais solto, mais liberto, à vontade.

A mim não me assusta o futuro
(já venho atrás dele do passado)
e vivo o presente descansado.
Por isso ainda hoje me aventuro.

Não fujo da surpresa da paixão,
adoro essa doce comichão
que sinto cada vez que me apaixono.

Eu finjo que me entrego, me ofereço
mas minha liberdade não tem preço.
Sou livre, sem amarras e sem dono.

LXXXVII Escrevo o teu nome em todo o lado!



Escrevo o teu nome em todo o lado!
No canto duma folha de jornal,
(em lenços, guardanapos, é normal)
num vidro de janela embaciado.

Escrevo sempre em letra miudinha
num gesto de ternura recorrente.
A mão ao escrever quase que sente
o toque do teu corpo em cada linha.

Mas sempre foi assim desde o começo,
por tanto o repetir nunca te esqueço
e tenho-te na ponta dos meus dedos.

Nem sabes que te escrevo a toda a hora…
Nas folhas de papel que deito fora
vai sempre o maior dos meus segredos.

LXXXVI Eu quero-te mas sempre dizes não.



Eu quero-te mas sempre dizes não.
Desejo-te até às escondidas
em noites de insónia, mal dormidas
em sonhos que me tiram a Razão.

Eu quero a vontade de querer,
eu amo a ideia de te amar,
suspiro e até me falta o ar,
invento-te se não te poder ver.

Escrevo febrilmente mais um verso,
construo meio louco um universo
aonde eu te tenho só para mim.

Depois mais um soneto magoado
até ficar doente, esgotado,
aqui nesta saudade sem ter fim.

LXXXV Bife Cru



No meio dos lençóis lá estás tu.
Sereia quase imóvel, como ausente,
estátua que da vida nada sente,
um bife mal passado quase cru.

A carne até é boa… suculenta.
Tem veias, tem gordura, boa cor
mas falta-lhe o tempero do amor,
o sal, o alecrim, boa pimenta.

Por isso nem me sabes a pecado.
Cebola estalada, refogado,
tempero sem picante e sem alho.

Nem sei mesmo o porquê do meu desejo,
nem deste meu tesão tão malfazejo.
Devias ter ficado lá no talho.

LXXXIV Perfume

Voltaste, como pêndulo à solta.
Não sei quando tu voltas, é incerto.
Se ontem eras longe, hoje perto
baralhas-me a cabeça com a volta.

Não sei por onde andaste, fugidia,
não morta mas apenas escondida.
Lembrança, uma bela adormecida,
memória que procuro todo o dia.

Eu sei que vais embora com o vento,
nem olhas para trás por um momento,
mas deixas uma réstia de perfume.

A ele me agarro em tua ausência,
mitigo a tua a falta, a abstinência.
Com ele eu atiço este lume.

LXXXIII Sorte


Vesti a camisola do avesso.
Uns dizem que é azar, um mau sinal,
que algo, cedo ou tarde, corre mal.
Por mim, eu não me importo até mereço.

Passeio por debaixo duma escada,
tropeço em gato preto a toda a hora.
Não ligo! O mau-olhado vai embora,
e sexta-feira 13 não é nada.

Não trago amuletos ou mezinhas,
nos bolsos não há nada escondido,
nem patas de coelhos, nem cruzinhas.

Apenas sou um filho desta sorte
que teima em manter-me protegido
até da foice impávida da morte.

LXXXII ...Mas não te dou!



Eu tenho, para te dar, pó das estrelas,
o brilho de mil sóis tão cintilantes,
os ais e os gemidos dos amantes,
as noites de luar entre as mais belas.

Eu tenho, para te dar, o som do mar
num búzio que encosto ao teu ouvido,
respostas para teu qualquer pedido,
ternura de canções de embalar.

Eu tenho, para te dar, um par de asas
(podendo tu voar por sobre as casas
um voo que nenhum anjo voou),

um monte de palavras doces, ternas,
mil versos e até juras eternas.
Eu tenho para te dar…mas não te dou.

LXXXI Bravo!!!


Sorrio cada vez em que eu penso
na forma que te abres para mim.
Entregas-te dizendo: -Quero sim!
sorrindo num desejo tão intenso.

Eu guio-te os gestos carinhoso.
Tu deixas-te guiar qual aprendiz,
atenta ao que a minha boca diz,
tu levas-me contigo nesse gozo.

Agora és tu que pedes, já ardente,
num grito que se torna exigente
que faça o que tu queres, como escravo.

Eu dou-te o meu corpo por inteiro,
nem sinto qual dos dois chegou primeiro.
Ah! Foi ao mesmo tempo!?! Então, Bravo!!!

LXXX Agora!!!


Um ápice, um segundo, um momento,
um ponto, um contraponto, um espaço,
é quando te elevas do cansaço
em força inusitada, novo alento.

Esticas-te, estrebuchas, estremeces
em transe demoníaco, tribal,
expeles o desejo animal
e num estertor louco te ofereces.

Eu fico assim quieto, mal respiro,
atento ao teu próximo suspiro,
eu sei que é chegada essa hora.

Espero eu também já ofegante
por esse tão singelo e doce instante.
Tu gritas: - Vem comigo! Já! Agora!!!

LXXIX Partes Brancas



Adoro no teu corpo as partes brancas
macias, desenhadas pelo sol
que estendes para mim no teu lençol
num lento rebolar das tuas ancas.

Nos seios é apenas um risquinho
que passa nos mamilos empinados.
Encolhes o bikini assim dos lados
o sol aí não chega, coitadinho.

Nas ancas não tens marcas, afinal
tu teimas em usar fio dental,
o sol pôde beijar e abusou.

Na frente um triângulo pequenino…
Eu pouso mais um beijo com carinho
aí onde o sol não te queimou.

LXXVIII À Revelia



Escrevo à revelia da moral
sem medo do atropelo à decência.
Escrevo apressado, com urgência
qualquer ideia mesmo a mais banal.

Escrevo sobre sexo, sem pudor,
com gosto, excitado, emotivo.
Escrevo sobre a morte, mas bem vivo,
só fujo de escrever sobre o amor.

Parece que não sei mais conjugar
um verbo que já soube manejar,
mas penso que também amei um dia.

Escrevo a direito, escrevo torto.
Quem sabe se algum dia, eu já morto,
serei também julgado à revelia.